A exportação da democracia norte-americana
A geração que acompanhou os movimentos revolucionários em vários países numa época em que os movimentos de libertação fervilhavam pelo Terceiro Mundo, deve se lembrar de um aspecto interessante da luta ideológica: os grandes meios de comunicação de massa dos países ocidentais viviam a tergiversar sobre a ‘exportação da revolução’, que seria incentivada pela ex-União Soviética, China ou Cuba. Nosso objetivo, neste artigo, é abordar a questão da exportação da democracia norte-americana.
Se no primeiro caso o que ocorria de fato era um movimento de solidariedade à luta de libertação dos povos, no segundo o que se tem é, na realidade, a solidariedade àqueles que pretendem retornar ao status de favorecimento às grandes corporações que exploram o povo. Isto é, a solidariedade às elites exploradoras de sempre, também chamada de ‘classe dominante’.
Hoje a opinião pública internacional assiste horrorizada aos movimentos de exportação da democracia norte-americana aos quatro cantos do Planeta. Tanto a primeira como a segunda invasão do Iraque, por exemplo, tiveram como álibi a implantação da democracia norte-americana num país muçulmano que seria governado por um ditador. O preço dessas invasões foi o de mais de um milhão de iraquianos assassinados ou mortos em conseqüência da falta de abastecimento devido ao bloqueio econômico promovido pelos EUA: um verdadeiro genocídio.
Sabe-se que tanto no primeiro como no segundo caso o governo norte-americano mentiu. A verdadeira causa dessas invasões foi o petróleo do país invadido. Hoje se observa mais um movimento do governo Bush no sentido da exportação de sua democracia a um outro país. Seu alvo: a separação de Kosovo, com o objetivo de aumentar sua influência geopolítica na região. O que chama a atenção são os métodos ‘democráticos’ de sempre do governo americano: a compra de consciências.
O escândalo surgiu agora na Eslovênia, após o vazamento de um documento interno do governo, em que Washington ‘recomenda’ ao mesmo que seja o primeiro a reconhecer a independência de Kosovo depois dos Estados Unidos. O Secretário de Estado Adjunto norte-americano sugere ao governo esloveno até quando e como o fazer! Resultado: Mitja Drobnic teve de renunciar ao cargo de diretor político do Ministério do Exterior esloveno.
Kosovo é uma província separatista da Sérvia cuja população é majoritariamente de origem albanesa. Mas os sérvios consideram Kosovo o berço de sua identidade nacional e religiosa e não aceitam a separação reivindicada pelos albaneses e apoiada pelos EUA e por parte da União Européia.
Em síntese, é a mesma dinâmica que aconteceu na disputa pelo poder nas ex-repúblicas soviéticas da Geórgia e da Ucrânia, em que milhões de dólares foram investidos pelo governo Bush nas campanhas dos candidatos pró-ocidentais como forma de promover as chamadas ‘revoluções laranjas’, que colocam no poder aqueles que serão os porta-vozes dos interesses norte-americanos dentro desses países, desmontando o Estado e privatizando tudo que for possível.
As ‘revoluções laranjas’ – nome pomposo e simpático inventado pelos ideólogos de Bush e amplamente divulgado pela mídia internacional – não passam de instrumentos sustentados por milhões de dólares e utilizados para exportar uma ‘democracia’ que só serve para desestabilizar aqueles setores políticos que, em cada um desses países, não aceitam o domínio político e econômico dos Estados Unidos sobre os mesmos.
A esperança é que, com a vitória de Barack Obama ou de Hillary Clinton nas próximas eleições, essa realidade seja revertida.
Emerson Leal – Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos.
E-mail: depl@df.ufscar.br
Fev/2008
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
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