13º. Domingo Mateus 10,37-42
Seguindo Jesus
Seguidores de Jesus. O evangelho deste que seria o 13º. Domingo comum, nos apresenta na visão da comunidade de Mateus, quais seriam as condições para sermos discípulos de Jesus. Usando a linguagem semita própria do “exagero” (amar mais o pai, mãe, filho e filha do que Jesus) Jesus deseja mostrar que o Reino está acima de tudo para quem é seu discípulo. Isso não quer dizer que não devemos amar os nossos familiares, mas não usar de nossas famílias como desculpa para não construirmos o Reino, uma vez que lá mesmo, em nossas famílias, ele deve ser construído e estabelecido.
Seguir Jesus até a cruz! Jesus deixa claro que ser discípulo significa morrer como ele morreu: na cruz. Hoje em dia vemos o testemunho de tantos que deram sua vida pela causa de Jesus e pela justiça no mundo e que foram mortos por aqueles que detinham o poder político e econômico. Perder a vida na busca de um mundo mais justo é na verdade ganha-la, pois significa uma vida plena de sentido e significado em função dos necessitados.
Função da missão cristã. Outro detalhe que aparece no texto é a identificação de Jesus com os seus missionários: quem os recebe, recebe Jesus. Nosso trabalho missionário tem a função de levar Jesus e seu Evangelho e nada mais. Nem nossas opiniões, nem nossas instituições, mas sim, Jesus e aquilo que ele queria: um mundo livre e fraterno.
Atualizando a mensagem. A Igreja nos convoca a sermos discípulos e missionários de Jesus. Isso significa: “entrar na escola de Jesus, aprender de seus valores, colocando-os em prática afim de que o mundo novo surja”. Todos somos missionários de Jesus. Como temos vivido nossa missão? Vivo o Evangelho em todos os ambientes nos quais estou? Será que quando olham para mim enxergam os germes do mundo novo que está para vir? Sou discípulo na medida em que aprendo com Jesus a ser como ele e sou missionário na medida em que aquilo que aprendi vivo onde quer que esteja.
Paz e Liberdade!
Frei Inácio José, mercedário
14º. Domingo Mt 11,25-30
Viver a Palavra segundo Jesus
Um pouco de história. Na época da escrita do Evangelho (anos 80 a 100 dC.), os judeus depois da destruição do Templo se organizaram em torno do farisaísmo que estabeleceu as normas para a vivência do judaísmo, excluindo as interpretações das demais correntes judaicas de então, dentre elas as comunidades judaico cristãs. O judaísmo rabínico que temos hoje possui suas raízes nos fariseus que sobreviveram da catástrofe sofrida pelos judeus por parte dos romanos nos anos 70 dc e 135 dc.
Nossa interpretação da Escritura também é válida! Nesse Evangelho Jesus louva ao Pai por se revelar aos pequenos (domingo passado os “pequenos” se identificam com os “missionários de Jesus”, ou seja, a comunidade de Mateus), e se esconde aos sábios e inteligentes. Quem seriam estes? Possivelmente os rabinos do judaísmo formativo de então, que não aceitaram outras interpretações da Escritura feita por outros grupos judaicos tais como os judeus cristãos. É forte a expressão: só o Filho conhece o Pai e o Filho o mostra a quem ele quiser. Isso pode significar a ruptura da comunidade de Mateus com o judaísmo tradicional de então, porque dá entender que os outros não conhecem o Pai, mas somente os que seguem Jesus.
Fardo e carga de Jesus são leves – discipulado de Jesus. É explícito chamado de Jesus a sermos seus discípulos. Ora no tempo de Jesus havia escolas nas quais os rabis ensinavam aos seus discípulos a lerem a Torah. Aqui fica o convite para entrarmos na escola de Jesus, a estudarmos e vivermos a Palavra do jeito que Jesus viveu. “Fardo” e “carga” podem significar a “halakhá de Jesus” – halakhá são os ensinos de conduta extraídos do estudo da Palavra e que todo rabi fazia. Jesus também o fazia: estudava a Palavra e dali tirava como os seus deveriam se comportar na vida prática.
Atualizando a mensagem. Se naquele tempo as normas estabelecidas pelos rabis na vivência da Palavra eram pesadas para o povo, Jesus veio com uma proposta mais simples e, no entanto mais exigente. Hoje corremos o risco de viver mais aquilo que nossos códigos e catecismos nos mandam do que a simplicidade exigente do Evangelho de Jesus. Digo simplicidade exigente porque tudo pode se resumir em “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Simples, mas difícil. Jesus nos pede essa vivência porque ele mesmo a viveu antes de nós e nos deu o exemplo de como viver isso. Que possamos aprender com Jesus então, afim de que o Reino de Deus sonhado por Jesus, possa ser construído em nosso meio.
Paz e Liberdade!
Frei Inácio José, mercedário
15º. Domingo Mt 13,1-23
Multidão ou discípulos?
Na linguagem do povo. Jesus é um rabi diferente. Ele ensina as coisas de Deus usando a linguagem do povo através de parábolas. Das coisas simples da vida consegue tirar belas lições para a conduta e vivência prática da Palavra (halakhá) para o povo. Nisso esse se assemelha aos rabis de sua época que também contavam parábolas para os seus discípulos em suas escolas.
Sementes. Jesus compara o Reino a sementes que caem em lugares diversos. Quem quer que o Reino de Deus se estabeleça de maneira forte e intransigente para todos “cai do cavalo” com esta parábola, pois Jesus mostra que o Reino é tão frágil como uma semente. A semente por si somente tem a força de crescer e germinar, mas depende de onde cai e se será bem cuidada ou não.
Terra. Na explicação da parábola Jesus nos diz que somos a terra onde a semente cai. Em seu tempo ele anunciou esse mundo novo para todos, mas nem todos o acolheram e sobretudo, aqueles a quem o Reino o incomodava, como no caso do poder romano, o mataram, pensando em exterminar a semente. Só que a semente continuou a crescer e continua até hoje...
Mas eles não entenderam? No verso 10 e 11, os discípulos questionam o porquê das parábolas contadas à multidão (vs 2). Jesus diz que é para que não entendam! Estranho: usa a linguagem do povo para que a multidão não entenda. Depois à parte Jesus explica a parábola aos discípulos. O texto deixa entrever uma tensão entre discípulos e multidão. O que isso quer dizer? Vamos à atualização...
Atualizando a mensagem. Hoje talvez nos preocupamos em que nossas igrejas estejam repletas de multidões e vemos muitas vezes inúmeros espetáculos da fé que aglomeram multidões em estádios, parques etc... A princípio podemos pensar que seja coisa boa e de fato é: multidões louvando o Senhor. Mas será que todos são discípulos de Jesus? Será que entraram na escola de Jesus para ser como o Mestre e construir o Reino? Porque não vemos essa multidão lutar por um mundo novo, mais justo e honesto, onde não haja tantos na miséria e poucos na riqueza? A “religião de massa” faz com o que o cristianismo corra o risco de se tornar uma diversão qualquer, como uma partida de futebol, por exemplo. No início os primeiros cristãos eram pequenas comunidades perseguidas. São os “discípulos”, muitas vezes perseguidos, mortos por causa do Evangelho. Quem são de fato os discípulos em nossas comunidades? Que este evangelho nos ajude a sairmos da multidão e entrarmos no discipulado de Jesus.
Paz e Liberdade!
Frei Inácio José, mercedário
16º. Domingo Mt 13, 24-43
Onde o Reino de Deus acontece? E como?
Outras parábolas de Jesus. Em nosso texto de hoje temos a parábola do joio/trigo e do grão de mostarda e do fermento. O Reino é semelhante ao trigo plantado, no qual alguém semeia joio, que depois será separado. O Reino é semelhante ao grão de mostarda que se torna uma grande árvore ou ao fermento que em pequena quantidade leveda toda a massa.
Tentando entender a mensagem. Jesus anunciou o Reino de Deus, ou seja, como seria o mundo se Deus fosse o Senhor de todas as coisas. Como o mundo estaria organizado se Deus fosse o seu Rei. No domingo passado aprendemos que o Reino cresce que nem uma semente, ele não é implantado de uma vez, mas depende do nosso cuidado para com ele. Hoje aprendemos que o Reino cresce em meio às contradições do anti-Reino (joio): bem e mal convivem lado a lado em nossa sociedade e nossa tendência é eliminar o mal. E não deve ser assim: o mal Deus pode transformar em bem. Aprendemos também que o Reino começa pequeno com adesão de poucos, mas quando crescer abrigará a todos os que anseiam e esperam por ele. O Reino de Deus não é para poucos, mas para a humanidade inteira. O Reino é como fermento, que escondido dentro da massa, faz com que ela cresça e fique bela. Fermento requer a medida certa: em demasia não dá certo, ou pouca quantidade também não funciona.
Atualizando a mensagem. Somos chamados por Jesus a construir o Reino de Deus. As parábolas de hoje nos ensinam como: aprendendo a conviver com as contradições em nossa comunidade. Todos nós temos o bem e o mal dentro da gente. Por isso não devemos eliminar os “maus”, mas ter a paciência e esperar o momento certo. Deus pode transformar o mal em bem e Ele sabe distinguir o trigo do joio (dizem que as duas plantas são muito parecidas e somente no momento em que estão maduras é que se pode distingui-las...). Precisamos aprender a valorizar as pequenas comunidades, pequenas iniciativas que procuram com sinceridade viver o Evangelho (grão de mostarda). Não é na massa (multidão) que está a verdadeira vivência do Reino, mas nos pequenos que formando comunidade partilham a vida. Por isso, em nossas comunidades estes são escondidos como o fermento, não aparecem aos olhos da paróquia. Às vezes são tidos por insignificantes. Mas são eles que, no meio da multidão (massa) fazem o Reino acontecer.
Paz e Liberdade!
Frei Inácio José, mercedário
17º. Domingo Mt 13,44-52
Tradição e tradição
Mais parábolas de Jesus. Jesus no evangelho de Mateus se apresenta como um grande rabi ensinando as coisas do Reino de Deus. Em todo o capítulo 13 ele conta uma série de parábolas ilustrando como é o Reino de Deus. Em nosso texto de hoje temos o Reino comparado a um tesouro escondido no campo ou uma pérola de grande valor que quando são descobertos se vende tudo para consegui-los. O Reino é como uma rede que pesca peixes de toda sorte que depois são separados e por fim Jesus diz que o escriba do Reino é como um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.
“Novidade” dentro da Tradição. Jesus foi judeu. Viveu a tradição judaica, mas, inspirado nela propôs algo novo não deixando de ser judeu. Creio que as duas últimas parábolas retratam isso. As duas primeiras demonstram que o Reino é aquilo que há de mais valoroso para o discípulo de Jesus.
Criatividade. Jesus em meio a seu tempo propôs como viver a vontade do Pai à sua maneira, as vezes rompendo certos aspectos tradicionais do judaísmo (como os ritos de pureza, por exemplo), mas sem deixar de ser fiel a Tradição (Torah escrita e Torah oral). Ele foi criativo. Ele não se deixou levar pela lei do “pode ou não pode”, mas com autonomia e responsabilidade viveu a sua fé e relação com o Pai, ensinando aos seus o mesmo. Muitos anos depois que Jesus morreu e ressuscitou, os chamados “Pais da Igreja” também demonstraram essa criatividade: em meio ao mundo grego, foram fiéis àquilo que era a Tradição Apostólica, mas inculturaram a sua fé em meio ao ambiente grego-romano, sem deixar de serem cristãos.
Atualizando a mensagem. Hoje corremos o risco de pensar que devemos agir de determinada forma porque “sempre foi assim”. Está errado! O critério não é porque “sempre foi assim” na Igreja, mas é porque esta forma se aproxima mais do Evangelho. No dia em que descobrirmos outra forma mais evangélica de atuar e agir no mundo diante dos desafios que este nos apresenta, não tenhamos medo de mudar! Não estaremos deixando a Tradição, mas a tradição. Porque será que muitas vezes percebemos a mensagem da Igreja tão distante dos seus fiéis? Será porque os fiéis não escutam? Ou será porque realmente a resposta da Igreja não diz nada para o mundo e os desafios de hoje? Penso que seja necessário a sensibilidade por parte dos nossos pastores para perceberem se estão vivendo a fidelidade criativa ao Evangelho ou se estão presos a tradições que não dizem mais nada para a sociedade atual. E nós? Somos fiéis as tradições ou sobretudo ao Evangelho?
Paz e Liberdade!
Frei Inácio José, mercedário
sexta-feira, 27 de junho de 2008
sexta-feira, 13 de junho de 2008
como ovelhas sem pastor
Como ovelhas sem pastor...
Jesus: o bom pastor. Os discípulos de Jesus enxergaram nele o “bom pastor que dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). “Pastor” na Bíblia, além de significar o sujeito que toma conta do rebanho das ovelhas, simboliza também o ofício dos que são responsáveis pela direção e condução do povo de Israel, de tal maneira que, se o povo se extravia, ou se perde, ou sofre alguma catástrofe, os profetas responsabilizam os maus pastores do povo (cf. Ez 34; Zc 11,17 e outros). O povo de Israel exilado diante disso reafirma que somente Deus pode ser de fato o pastor do povo, aquele que cuida com carinho e não abandona jamais (Sl 23). Jesus nos evangelhos assume essa postura.
Jesus se preocupa com os seus. Jesus se compadece do povo (Mt 9,36) porque estão como ovelhas sem pastor, ou seja, sem liderança que os conduza nos caminhos da justiça, fraternidade e no cumprimento da Torah. Para isso suscita discípulos para fazer o que ele mesmo fez (Mt 10, 1-4) com a intenção, sobretudo de ir aos perdidos do próprio povo (Mt 10, 5-8). A comunidade de Mateus, quando escreve seu evangelho está passando por forte crise: muitos dos seus estão deixando a comunidade para seguir outros movimentos judaicos da época. Por este motivo existe nesse texto a preocupação “com os de dentro”, afim de mantê-los na comunidade, vivendo a Torah segundo a interpretação de Jesus, o Messias. Em todo evangelho de Mateus, Jesus se apresenta como um verdadeiro intérprete da Torah, que garante a legitimidade da prática da comunidade mateana.
Autoridade dividida. Nesse mesmo evangelho vemos Jesus dando autoridade aos apóstolos a fazerem o mesmo que ele fez (Mt 10,1). Jesus não centralizou as coisas em suas mãos, mas dividiu o seu poder com a comunidade. O mesmo deve ser em nossas comunidades hoje: não é o padre que tem decidir tudo e ter a palavra e ação final. Mas sim a comunidade. O evangelho de Mateus deixa isso bem claro: Jesus dá a mesma autoridade a Pedro (Mt 16, 19) à comunidade (Mt 18,18). O poder na comunidade cristã é partilhado, não é para estar nas mãos de um só.
Atualizando o Evangelho. Como Igreja podemos ter duas iniciativas: buscar mais gente para nossas comunidades ou nos preocupar em formar os que dela já fazem parte. O evangelho deste domingo nos leva a pensar na formação para com os de dentro, os que já fazem parte de nossas comunidades e paróquias. Muitas vezes somos relapsos com os de dentro, não lhes fornecendo uma formação sólida que seja capaz de responder aos desafios de nossos tempos... Talvez seja por isso que muitos “deixam o rebanho” e vão para outros ambientes nos quais sentem-se acolhidos, amados e, sobretudo, bem formados. Por mesquinhez muitas vezes os líderes de nossas comunidades não formam os seus membros. Existe muita gente boa por aí, disposta a se formar, a encarar estudos teológicos, a se preparar bem para serem bons catequistas e agentes de pastoral, mas, sei lá por quais motivos (financeiro, ideológico, jogos de poder etc) não são preparados e nem sequer estimulados a isso. Que este domingo nos ensine então: a nos preocupar com a qualidade formativa dos membros de nossas comunidades – importa é a qualidade dos discípulos e não a quantidade deles! E que o exemplo de Jesus nos ensine a não centralizarmos o poder, as decisões de nossas comunidades, mas que vivamos de fato o espírito de comunidade, onde todos têm voz e vez, participando das iniciativas da evangelização da Igreja.
Paz e Mercê!
Frei Inácio José, mercedário
Jesus: o bom pastor. Os discípulos de Jesus enxergaram nele o “bom pastor que dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). “Pastor” na Bíblia, além de significar o sujeito que toma conta do rebanho das ovelhas, simboliza também o ofício dos que são responsáveis pela direção e condução do povo de Israel, de tal maneira que, se o povo se extravia, ou se perde, ou sofre alguma catástrofe, os profetas responsabilizam os maus pastores do povo (cf. Ez 34; Zc 11,17 e outros). O povo de Israel exilado diante disso reafirma que somente Deus pode ser de fato o pastor do povo, aquele que cuida com carinho e não abandona jamais (Sl 23). Jesus nos evangelhos assume essa postura.
Jesus se preocupa com os seus. Jesus se compadece do povo (Mt 9,36) porque estão como ovelhas sem pastor, ou seja, sem liderança que os conduza nos caminhos da justiça, fraternidade e no cumprimento da Torah. Para isso suscita discípulos para fazer o que ele mesmo fez (Mt 10, 1-4) com a intenção, sobretudo de ir aos perdidos do próprio povo (Mt 10, 5-8). A comunidade de Mateus, quando escreve seu evangelho está passando por forte crise: muitos dos seus estão deixando a comunidade para seguir outros movimentos judaicos da época. Por este motivo existe nesse texto a preocupação “com os de dentro”, afim de mantê-los na comunidade, vivendo a Torah segundo a interpretação de Jesus, o Messias. Em todo evangelho de Mateus, Jesus se apresenta como um verdadeiro intérprete da Torah, que garante a legitimidade da prática da comunidade mateana.
Autoridade dividida. Nesse mesmo evangelho vemos Jesus dando autoridade aos apóstolos a fazerem o mesmo que ele fez (Mt 10,1). Jesus não centralizou as coisas em suas mãos, mas dividiu o seu poder com a comunidade. O mesmo deve ser em nossas comunidades hoje: não é o padre que tem decidir tudo e ter a palavra e ação final. Mas sim a comunidade. O evangelho de Mateus deixa isso bem claro: Jesus dá a mesma autoridade a Pedro (Mt 16, 19) à comunidade (Mt 18,18). O poder na comunidade cristã é partilhado, não é para estar nas mãos de um só.
Atualizando o Evangelho. Como Igreja podemos ter duas iniciativas: buscar mais gente para nossas comunidades ou nos preocupar em formar os que dela já fazem parte. O evangelho deste domingo nos leva a pensar na formação para com os de dentro, os que já fazem parte de nossas comunidades e paróquias. Muitas vezes somos relapsos com os de dentro, não lhes fornecendo uma formação sólida que seja capaz de responder aos desafios de nossos tempos... Talvez seja por isso que muitos “deixam o rebanho” e vão para outros ambientes nos quais sentem-se acolhidos, amados e, sobretudo, bem formados. Por mesquinhez muitas vezes os líderes de nossas comunidades não formam os seus membros. Existe muita gente boa por aí, disposta a se formar, a encarar estudos teológicos, a se preparar bem para serem bons catequistas e agentes de pastoral, mas, sei lá por quais motivos (financeiro, ideológico, jogos de poder etc) não são preparados e nem sequer estimulados a isso. Que este domingo nos ensine então: a nos preocupar com a qualidade formativa dos membros de nossas comunidades – importa é a qualidade dos discípulos e não a quantidade deles! E que o exemplo de Jesus nos ensine a não centralizarmos o poder, as decisões de nossas comunidades, mas que vivamos de fato o espírito de comunidade, onde todos têm voz e vez, participando das iniciativas da evangelização da Igreja.
Paz e Mercê!
Frei Inácio José, mercedário
segunda-feira, 9 de junho de 2008
misericórdia e não sacrifício
Misericórdia e não sacrifício
Mt 9, 9-13
O texto desse evangelho nos mostra Jesus chamado Mateus, coletor de impostos para o seguimento. Isso significa que os discípulos de Jesus que escreveram este evangelho admitiam em sua comunidade a presença de pessoas que colaboravam com os gentios, aqui no caso, Roma. Isso era inadmissível para certas correntes judaicas, tais como a escola rabínica de Shamai da época de Jesus, que não admitiam a convivência com não judeus. Outra famosa escola rabínica da época de Jesus era a de Hillel, que admitia a convivência com não judeus com a intenção de lhes ensinar a Torá, ou seja a vivência da Palavra de Deus. O termo "segue-me" é um termo técnico que denota a relação entre um rabino e seu discípulo.
Depois o texto segue dizendo que Jesus comia com pecadores e coletores de impostos – atitude de inclusão para com os que eram judeus colaboradores com os opressores romanos e para com os não judeus (pecadores por não viverem a Torá). "Os fariseus" se aproximam e questionam essa atitude, talvez por serem do grupo dos mais rigorosos (Shamai) e não dos mais "misericordiosos" (Hillel).
Daí Jesus responde que os doentes é que precisam de médico, que ele veio para os pecadores e não para os justos – veio para incluir as pessoas na vivência da Palavra e não para os que já vivem a Palavra (justos); além disso, cita Oséias 6,6 "quero misericórdia e não sacrifício". Como interpretar isso? Os profetas sempre denunciaram o culto religioso sem a prática da justiça (Os 6,6; Am 5,21; Mq 6,8; Is 58). O culto religioso é bom, mas sem a justiça e o amor vividos ele se torna vão, sem valor e sem sentido. Em Mt 21,12-13, vemos Jesus expulsando os vendedores do Templo usando como argumento Is 56,7 "minha casa será casa de oração" e Jr 7,11 casa de Deus como "covil de ladrões", dando a entender que a casa de oração não é má em si, mas o é quando lhe falta a prática de justiça! E para a comunidade mateana, como podemos perceber no texto evangélico dominical, justiça significa acolher a todos e proporcionar a todos (judeus e não judeus naquele tempo e todas as pessoas, de qualquer classe, credo religioso ou opções pessoais, no hoje) o conhecimento da Palavra de Deus expresso pelo seguimento de Jesus.
Paz e mercê!
Frei Inácio José, mercedário
Mt 9, 9-13
O texto desse evangelho nos mostra Jesus chamado Mateus, coletor de impostos para o seguimento. Isso significa que os discípulos de Jesus que escreveram este evangelho admitiam em sua comunidade a presença de pessoas que colaboravam com os gentios, aqui no caso, Roma. Isso era inadmissível para certas correntes judaicas, tais como a escola rabínica de Shamai da época de Jesus, que não admitiam a convivência com não judeus. Outra famosa escola rabínica da época de Jesus era a de Hillel, que admitia a convivência com não judeus com a intenção de lhes ensinar a Torá, ou seja a vivência da Palavra de Deus. O termo "segue-me" é um termo técnico que denota a relação entre um rabino e seu discípulo.
Depois o texto segue dizendo que Jesus comia com pecadores e coletores de impostos – atitude de inclusão para com os que eram judeus colaboradores com os opressores romanos e para com os não judeus (pecadores por não viverem a Torá). "Os fariseus" se aproximam e questionam essa atitude, talvez por serem do grupo dos mais rigorosos (Shamai) e não dos mais "misericordiosos" (Hillel).
Daí Jesus responde que os doentes é que precisam de médico, que ele veio para os pecadores e não para os justos – veio para incluir as pessoas na vivência da Palavra e não para os que já vivem a Palavra (justos); além disso, cita Oséias 6,6 "quero misericórdia e não sacrifício". Como interpretar isso? Os profetas sempre denunciaram o culto religioso sem a prática da justiça (Os 6,6; Am 5,21; Mq 6,8; Is 58). O culto religioso é bom, mas sem a justiça e o amor vividos ele se torna vão, sem valor e sem sentido. Em Mt 21,12-13, vemos Jesus expulsando os vendedores do Templo usando como argumento Is 56,7 "minha casa será casa de oração" e Jr 7,11 casa de Deus como "covil de ladrões", dando a entender que a casa de oração não é má em si, mas o é quando lhe falta a prática de justiça! E para a comunidade mateana, como podemos perceber no texto evangélico dominical, justiça significa acolher a todos e proporcionar a todos (judeus e não judeus naquele tempo e todas as pessoas, de qualquer classe, credo religioso ou opções pessoais, no hoje) o conhecimento da Palavra de Deus expresso pelo seguimento de Jesus.
Paz e mercê!
Frei Inácio José, mercedário
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Não basta crer, é preciso viver
Não basta crer, é preciso viver.
O Evangelho deste nono domingo do tempo comum (Mt 7,21-27) quebra alguns conceitos que temos em nossa cabeça. Muitos pensamos que basta crer em Jesus para entrar na dinâmica do Reino e não é verdade (v. 21)! É preciso fazer a vontade do Pai. Quem a faz, pertence à família de Jesus (Mt 12,50).
Às vezes pensamos que nossas atitudes são evangélicas, mas na verdade podem estar carregadas de um desejo de se auto promover: profetizar em nome de Jesus, expulsar o mal e realizar prodígios podem não ser da vontade do Pai. O serviço que presto em minha comunidade será vontade do Pai? O que me motiva a servir? A estes que buscam autopromoção ou a própria vontade Jesus tem uma palavra dura "naquele dia": "nunca vos conheci". "Naquele dia" faz referência ao último dia no qual seremos julgados por Deus através de nossos atos de amor (Mt 25, 31ss) e "conhecer" na Bíblia significa intimidade, profundidade e também faz referência ao último dia no qual os imprudentes, os que não viveram a fidelidade à Palavra de Deus não serão conhecidos por Deus (Mt 25,12).
Depois Jesus conta uma parábola: quem escuta "estas palavras" é semelhante a alguém que constrói sua casa sobre a rocha. "Escutar" é um dos verbos mais importantes da Bíblia. É com ele que se começa a famosa oração bíblico-judaica "Shemá Israel": "escuta Israel, o Senhor é nosso Deus, um é o Senhor". É preciso acima de tudo escutar a Palavra do Senhor para colocá-la em prática. “Estas palavras” se referem às próprias palavras de Jesus no evangelho de Mateus – desde o capítulo 5 Jesus está pronunciando o seu famoso “sermão da montanha”, onde ele estabelece quais são os fundamentos da vida cristã. Os caps 5 a 7 de Mateus, são a “carta magna” da vivência cristã. O evangelho que refletimos aqui termina todo este discurso de Jesus. “Rocha”: em diversos salmos, Deus é chamado de “rocha” (Sl 19,14; 28,1; 31,2s etc). “Construir casa sobre a rocha” pode significar o colocar como alicerce de nossa existência a Palavra de Deus proclamada por Jesus (“estas palavras”). Jesus é nossa rocha e nada mais. A quem, como cristãos temos dado mais ouvidos: a Jesus e seus valores ou aos valores do mundo capitalista de hoje? Vemos hoje em dia um mundo em caos justamente por padecer de valores... Não se assemelha por acaso à casa construída na areia cujas tempestades vêem e destroem?
Que cada dia sejamos mais fiéis na construção do Reino, tendo por fundamento os ensinamentos de Jesus.
Paz e Mercê.
Frei Inácio José, mercedário
O Evangelho deste nono domingo do tempo comum (Mt 7,21-27) quebra alguns conceitos que temos em nossa cabeça. Muitos pensamos que basta crer em Jesus para entrar na dinâmica do Reino e não é verdade (v. 21)! É preciso fazer a vontade do Pai. Quem a faz, pertence à família de Jesus (Mt 12,50).
Às vezes pensamos que nossas atitudes são evangélicas, mas na verdade podem estar carregadas de um desejo de se auto promover: profetizar em nome de Jesus, expulsar o mal e realizar prodígios podem não ser da vontade do Pai. O serviço que presto em minha comunidade será vontade do Pai? O que me motiva a servir? A estes que buscam autopromoção ou a própria vontade Jesus tem uma palavra dura "naquele dia": "nunca vos conheci". "Naquele dia" faz referência ao último dia no qual seremos julgados por Deus através de nossos atos de amor (Mt 25, 31ss) e "conhecer" na Bíblia significa intimidade, profundidade e também faz referência ao último dia no qual os imprudentes, os que não viveram a fidelidade à Palavra de Deus não serão conhecidos por Deus (Mt 25,12).
Depois Jesus conta uma parábola: quem escuta "estas palavras" é semelhante a alguém que constrói sua casa sobre a rocha. "Escutar" é um dos verbos mais importantes da Bíblia. É com ele que se começa a famosa oração bíblico-judaica "Shemá Israel": "escuta Israel, o Senhor é nosso Deus, um é o Senhor". É preciso acima de tudo escutar a Palavra do Senhor para colocá-la em prática. “Estas palavras” se referem às próprias palavras de Jesus no evangelho de Mateus – desde o capítulo 5 Jesus está pronunciando o seu famoso “sermão da montanha”, onde ele estabelece quais são os fundamentos da vida cristã. Os caps 5 a 7 de Mateus, são a “carta magna” da vivência cristã. O evangelho que refletimos aqui termina todo este discurso de Jesus. “Rocha”: em diversos salmos, Deus é chamado de “rocha” (Sl 19,14; 28,1; 31,2s etc). “Construir casa sobre a rocha” pode significar o colocar como alicerce de nossa existência a Palavra de Deus proclamada por Jesus (“estas palavras”). Jesus é nossa rocha e nada mais. A quem, como cristãos temos dado mais ouvidos: a Jesus e seus valores ou aos valores do mundo capitalista de hoje? Vemos hoje em dia um mundo em caos justamente por padecer de valores... Não se assemelha por acaso à casa construída na areia cujas tempestades vêem e destroem?
Que cada dia sejamos mais fiéis na construção do Reino, tendo por fundamento os ensinamentos de Jesus.
Paz e Mercê.
Frei Inácio José, mercedário
segunda-feira, 2 de junho de 2008
CNBB
Nota ofical sobre a decisão do STF 19:02 - 29/05/2008
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lamenta a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou a validade constitucional do artigo 5o e seus parágrafos da Lei de Biossegurança, n. 11.105/2005, que permite aos pesquisadores usarem, em pesquisas científicas e terapêuticas, os embriões criados a partir da fecundação in vitro e que estão congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização.
A decisão do STF revelou uma grande divergência sobre a questão em julgamento, o que mostra que há ministros do Supremo que, nesse caso, têm posições éticas semelhantes à da CNBB. Portanto, não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que esta se encontra.
Reconhecer que o embrião é um ser humano desde o início do seu ciclo vital significa também constatar a sua extrema vulnerabilidade que exige o empenho nos confrontos de quem é fraco, uma atenção que deve ser garantida pela conduta ética dos cientistas e dos médicos, e de uma oportuna legislação nacional e internacional.
Sendo uma vida humana, segundo asseguram a embriologia e a biologia, o embrião humano tem direito à proteção do Estado. A circunstância de estar in vitro ou no útero materno não diminui e nem aumenta esse direito. É lamentável que o STF não tenha confirmado esse direito cristalino, permitindo que vidas humanas em estado embrionário sejam ceifadas.
No mundo inteiro, não há até hoje nenhum protocolo médico que autorize pesquisas científicas com células-tronco obtidas de embriões humanos em pessoas, por causa do alto risco de rejeição e de geração de teratomas.
Ao contrário do que tem sido veiculado e aceito pela opinião pública, as células-tronco embrionárias não são o remédio para a cura de todos os males. A alternativa mais viável para essas pesquisas científicas é a utilização de células-tronco adultas, retiradas do próprio paciente, que já beneficiam mais de 20 mil pessoas com diversos tipos de tratamento de doenças degenerativas.
Reafirmamos que o simples fato de estar na presença de um ser humano exige o pleno respeito à sua integridade e dignidade: todo comportamento que possa constituir uma ameaça ou uma ofensa aos direitos fundamentais da pessoa humana, primeiro de todos o direito à vida, é considerado gravemente imoral.
A CNBB continuará seu trabalho em favor da vida, desde a concepção até o seu declínio natural.
Brasília, 29 de maio de 2008.
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lamenta a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou a validade constitucional do artigo 5o e seus parágrafos da Lei de Biossegurança, n. 11.105/2005, que permite aos pesquisadores usarem, em pesquisas científicas e terapêuticas, os embriões criados a partir da fecundação in vitro e que estão congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização.
A decisão do STF revelou uma grande divergência sobre a questão em julgamento, o que mostra que há ministros do Supremo que, nesse caso, têm posições éticas semelhantes à da CNBB. Portanto, não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que esta se encontra.
Reconhecer que o embrião é um ser humano desde o início do seu ciclo vital significa também constatar a sua extrema vulnerabilidade que exige o empenho nos confrontos de quem é fraco, uma atenção que deve ser garantida pela conduta ética dos cientistas e dos médicos, e de uma oportuna legislação nacional e internacional.
Sendo uma vida humana, segundo asseguram a embriologia e a biologia, o embrião humano tem direito à proteção do Estado. A circunstância de estar in vitro ou no útero materno não diminui e nem aumenta esse direito. É lamentável que o STF não tenha confirmado esse direito cristalino, permitindo que vidas humanas em estado embrionário sejam ceifadas.
No mundo inteiro, não há até hoje nenhum protocolo médico que autorize pesquisas científicas com células-tronco obtidas de embriões humanos em pessoas, por causa do alto risco de rejeição e de geração de teratomas.
Ao contrário do que tem sido veiculado e aceito pela opinião pública, as células-tronco embrionárias não são o remédio para a cura de todos os males. A alternativa mais viável para essas pesquisas científicas é a utilização de células-tronco adultas, retiradas do próprio paciente, que já beneficiam mais de 20 mil pessoas com diversos tipos de tratamento de doenças degenerativas.
Reafirmamos que o simples fato de estar na presença de um ser humano exige o pleno respeito à sua integridade e dignidade: todo comportamento que possa constituir uma ameaça ou uma ofensa aos direitos fundamentais da pessoa humana, primeiro de todos o direito à vida, é considerado gravemente imoral.
A CNBB continuará seu trabalho em favor da vida, desde a concepção até o seu declínio natural.
Brasília, 29 de maio de 2008.
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
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