A fé de Pedro.
A comunidade dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus formaram comunidade/assembléia (igreja, ecclesia) em torno da fé proclamada por Pedro no Evangelho deste domingo: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Este é o motivo pelo qual ainda hoje nos reunimos ou deveríamos nos reunir, formando Igreja e construindo o Reino de Deus no meio do povo.
O que importa é a fé de Pedro e não o próprio Pedro. A fé dele se torna fundamento para a comunidade. A fé pode justificar a reunião dos crentes e não a pessoa. Quando nos reunimos em comunidade por causa das pessoas, sem querer desmerece-las é claro, estamos desvirtuando a verdadeira motivação da existência da igreja: a fé em Jesus Cristo. Na prática vemos muito por aí, as pessoas participando da comunidade por causa do padre, ou por causa dos cargos eu exercem na comunidade. São motivações distorcidas, eu diria. A fé em Jesus é que deve ser o motivo principal pelo qual nos reunimos, trabalhamos nas pastorais e movimentos, participamos dos sacramentos etc. Da fé em Jesus Cristo partimos para a valorização das pessoas que faz parte intrínseca da fé em Jesus.
Isso nos faz pensar: a Igreja possui uma função relativa. Pode parecer dura a afirmação, mas é verdade: ela existe em função da fé em Jesus Cristo. Quando ela não ajuda a crescermos nessa fé e a nos comprometermos com a causa do Reino de Deus, motivo pelo qual Jesus deu a sua vida, então algo precisa ser modificado, algo precisa ser questionado e mudado. Dessa forma podemos perceber que não somente nossa comunidade se reúne em torno de Jesus, mas que muitas outras por aí, de formas distintas de expressão, também se reúnem com esse propósito.
Que a liturgia deste domingo nos favoreça uma melhor compreensão de que somos Igreja, que somos família reunida em torno da fé em Jesus, com a meã de construirmos um mundo novo, mais justo e fraterno (Reino de Deus). Que nos sintamos indagados a respeito de nossas motivações acerca de nossa participação da vida eclesial: afinal, porque participo da Igreja? Porque sou católico? Qual a minha real motivação para a minha participação na comunidade cristã?
Deus nos abençoe.
Paz e Mercê!
Inácio José, mercedário
A fé de Pedro II
Em nossa última reflexão dizíamos que a fé de Pedro é que era a pedra que sustentava a comunidade dos seguidores de Jesus e não o próprio Pedro. No evangelho deste domingo percebemos como que essa afirmação procede. Depois de proclamar que Jesus é o Messias, Filho do Deus vivo, Pedro não aceita o anúncio do próprio Jesus que dizia que deveria sofrer em Jerusalém e ressuscitar no terceiro dia.
Que Jesus é o Messias, tudo bem. Mas que tipo de messias? Na época de Jesus existiam diversas expectativas messiânicas das quais a que mais se destacava era o “messias, filho de Davi”, espécie de líder político que libertaria os judeus da dominação dos estrangeiros. Quando Pedro diz que Jesus é o messias talvez esteja pensando neste tipo de messias que, obviamente não poderia morrer, não poderia ser vencido e que usaria de violência. Jesus desconstrói esse messianismo, pois Jesus se configura como o Messias Servo Sofredor, aquele que morre por causa da justiça, mas que, através do qual, Deus redime a muitos. Esse messianismo é inspirado nos “cânticos do servo” no profeta Isaias.
Aquele que pensa Jesus como um messias glorioso e cheio de poder, na verdade está com os “pensamentos de satanás”! Nas tentações de Jesus por acaso, satanás não o procurou tentar lhe oferecendo poder? Jesus recusou isso. Não aceitou.
Que tipo de messias a Igreja tem ensinado que é Jesus? Messias glorioso? Ou messias que sofre e morre não porque o Pai quis, mas porque lutava por um mundo mais justo? Dizer que Jesus morreu porque Deus quis é legitimar nosso sofrimento e justificar em Deus todos os males pelos quais somos responsáveis. Mas dizer que Jesus morreu porque lutava por um mundo mais justo e que isso incomodou a alguns poderosos de sua época, os quais o mataram, significa afirmar que Deus está do lado de quem quer um mundo melhor e mesmo que este morra, terá a vida a vida, pois Deus não corrobora com a injustiça, mas deseja o bem de todos.
Enfim: a fé de Pedro sustenta a comunidade, mas mesmo assim precisa ser purificada. Hoje em dia o mesmo acontece: a fé dos representantes de Pedro devem nos levar a perceber Jesus como Messias, filho de Deus, que morre pela justiça e não por um decreto do Pai (senão, que Pai bondoso seria esse???). Devem nos levar também a perceber Jesus não tão glorioso e distante de nós, mas um Jesus encarnado em nossa história, que conhece os nossos dilemas e desafios e que por isso mesmo, pode ser luz e salvação para as nossas vidas.
Paz e liberdade.
Mercê em abundância para todos.
Inácio José, mercedário
EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ
Jesus fez por merecer sua cruz. Essa afirmação pode parecer dura e chocar a catequese que recebemos quando crianças. Geralmente aprendemos que Deus enviou Jesus ao mundo para morrer na cruz. Isso contradiz em muito o Deus de amor que o próprio Jesus veio nos comunicar. Que Pai é esse que manda o próprio Filho ao mundo para morrer desse jeito?
Quando digo que Jesus fez por merecer a sua cruz quero afirmar que a cruz foi conseqüência da vida de Jesus. Num mundo injusto quem prega e vive a justiça acaba padecendo a morte nas mãos dos poderosos. Num mundo onde os pequenos são explorados, quem se atreve a ser a voz deles, acaba tendo a cruz como fim. Não morre na cruz quem é pecador. Pecadores são os que crucificam, tanto ontem, como hoje!
Nesse domingo celebramos a exaltação da santa cruz: pela cruz de Jesus nos veio a salvação. Como a cruz, sinal de violência para com os mais fracos pode se tornou instrumento de salvação? Na cruz, o amor venceu a violência, o ódio, o egoísmo. A violência desmedida e opressora dos romanos é minada em sua raiz pelo amor de Deus que se doa para a nossa felicidade, "não tiram a minha vida, eu a dou por mim mesmo", diz Jesus no evangelho de João. O remédio contra a violência em nossa vida, casas, bairros, é o perdão, é o se doar novamente mesmo aos nossos inimigos. Desta forma o círculo vicioso da violência e do pecado pode ser vencido.
Assim da mesma forma como as serpentes no deserto são convertidas em sinal de cura para o povo de Israel pelas mãos de Moisés, a cruz de Jesus, aparente derrota diante do poder da violência, se converte em sinal de vida e vida em abundancia; tanto é verdade que sua mensagem não morreu, continuamos ainda hoje levando adiante a boa nova de um mundo mais justo e fraterno.
Jesus fez por merecer a sua cruz. E nós também, na medida em formos coerentes no empenho em transformar as estruturas de injustiça em nosso mundo, também poderemos ter a cruz, a morte cruel como fim. Haja visto tantas pessoas que morreram sob a ditadura militar. Pessoas que morrem ainda em nossos dias na Amazônia defendendo os agricultores. Missionários que morrem defendendo os direitos dos indígenas e muitos outros mais. Será que como Jesus, queremos também merecer a nossa cruz?
Inácio José, mercedário.
O desafio de ser comunidade-reconciliação.
A liturgia deste domingo nos convida a duas coisas: 1) formar e criar consciência de que somos comunidade. 2) somos chamados a sermos comunidade reconciliadora.
Ezequiel profetiza para o povo de Deus exilado na Babilônia. Deus lhe chamou a ser sentinela do povo. Hoje em dia vivemos uma ideologia de que cada deve viver sua vida sem prestar conta dela aos demais, "a vida é minha, ninguém não tem nada a ver com isso". Quando se vive em comunidade, precisamos assumir a postura de sermos responsáveis pelos passos da comunidade: se ela vai bem, é graças a nós. Se vai mal também é por responsabilidade nossa. Quando exortamos a comunidade para o bem e ela mesmo assim vai mal, a responsabilidade é da comunidade. Agora se vai mal porque não demos a nossa contribuição, então a responsabilidade cai sobre nossas costas. Precisamos adquirir a consciência de que "somos igreja" e não somente o papa, bispos, padres etc. Sou igreja. Você é igreja. Somos igreja.
Quando vivemos em comunidade a única coisa que importa é que vivamos o amor. O amor resume todos os preceitos da Torah, segundo Paulo. Como bom fariseu que era, ele resume é um só versículo os mandamentos da Torah: "ame o próximo como a si mesmo". No tempo de Jesus a "regra de ouro" era famosa, "não faça aos outros o que não queres que te façam". Jesus formula o mesmo pensamento não proibindo, mas convidando à ação, "faça aos outros o que queres que te faça", ou seja, me comporto com os demais do mesmo modo como quero que comportem comigo. Jesus nos chama a atenção para o fato de que o "não fazer o bem" também é pecado: nossa omissão é responsável por uma comunidade cristã menos humana, bem como uma sociedade menos humana.
Na comunidade haverá atritos, ofensas etc. Viver em comunidade é sempre desafio. Não somos anjos. Somos humanos. Cada um diferente do outro. Por isso se o irmão peca contra mim na comunidade, devo conversar com ele, me reconciliar com ele e não descontar nos outros... Interessante o detalhe: pecar contra alguém (indivíduo) significa pecar contra a comunidade (ekklesia – igreja). Por isso se em meu diálogo com alguém que me ofendeu eu não consegui "acertar meus ponteiros com ele", devo chamar pessoas para intermediar a paz ("levar dois comigo"), caso ainda não dê resultado comunico a igreja, para que ela possa intermediar a reconciliação (fantástico: o texto começa com uma ofensa pessoal que é compreendida como uma ofensa à comunidade. Não estará aqui a consciência de que o "indivíduo é igreja"?). Se mesmo assim não houver reconciliação então é melhor deixar as coisas como estão ("tratar como pagão, ou pecador público"). Isso não significa expulsar a pessoa da comunidade ou menosprezá-la publicamente. Entendo aqui o fato das pessoas que não se entendem na comunidade se afastarem dela. Ora, na teoria seria belo demais se todos nos entendêssemos. Mas na prática não é assim. Deus quer que todos sejamos felizes dentro ou fora da igreja. Por isso é melhor a pessoa ser ela mesma e feliz fora da comunidade do que causar transtornos e infernos dentro da comunidade, sendo infeliz e fazendo os demais infelizes.
Na comunidade as decisões devem ser partilhadas. "tudo o que tu ligares... tudo o que tu desligares"... "Ligar" e "desligar" são termos rabínicos de inclusão ou expulsão de um membro da escola ou sinagoga da época de Jesus. Ora, no capitulo 16 de Mateus, Jesus dá esse poder a Pedro. Aqui Jesus dá esse poder aos discípulos. Isso significa que as decisões na comunidade não devem estar nas mãos de uma pessoa somente, mas nas mãos da comunidade, devidamente representada pelo conselho da comunidade. Lendo somente o cap. 16 temos a impressão de que Pedro tem todo poder nas mãos. Essa impressão cai por terra quando avançamos a leitura até o cap 18, texto de nosso domingo.
Enfim, Mateus quer nos ensinar que a comunidade não deve ser um espaço de bagunça e desorganização, mas que deve ter seus limites e normas de boa convivência. Jesus está no meio da comunidade, dando o seu aval às decisões e orações feitas em comunidade. Belíssimo ensinamento remando contra a maré do individualismo e subjetivismo exacerbado no qual vivemos atualmente. Deus nos abençoe em nosso desafio de sermos comunidade.
Paz e liberdade.
Mercê em abundância.
Inácio José, mercedário
Leitura Orante da Palavra (lectio divina)
O que é? A lectio divina ou leitura orante da Palavra de Deus é o modo de nos aproximarmos da Palavra, com a finalidade de orar e entrar em contemplação, isto é, entrar em comunhão com Deus e sua vontade através de sua Palavra. Não é um estudo exegético nem curiosidade, mas uma leitura amorosa da Palavra que nos leva a mergulhar no mistério de Deus e descobrir sua vontade em nossa vida.
Contexto histórico. Esse modo de leitura da Palavra já está presente nos Santos Padres da Igreja, que tinham a preocupação de que as pessoas não se aproximasse da Palavra com mero espírito de especulação, mas respeito amoroso por ser Palavra de Deus, mas sua sistematização mais clássica temos na obra do monge cartuxo Guido II (1188) em sua carta a Gervásio, intitulada Scala claustralium, que a dividiu em 4 momentos: leitura, meditação, oração e contemplação.
Importância hoje. A Igreja no Concilio Vaticano II confirmou a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja através do documento Dei Verbum, em diversas de suas passagens. Toda a teologia e espiritualidade da Igreja está centrada na escuta e vivência da Palavra de Deus. Todos os fiéis são convidados a fazer a experiência do mistério de Deus mediante a sua Palavra.
Como fazer? São quatro passos simples, mas que devem ser feitos em espírito de oração. Por isso, convém começar invocando o Espírito Santo, inspirador das Sagradas Escrituras, para nos abra a mente para mergulharmos nos mistérios de Deus. Escolhemos uma passagem para fazer a leitura (pode ser algum texto da liturgia do dia). 1. Na leitura procuramos entender o que o texto diz em si mesmo, sobretudo para aqueles aos quais o texto foi destinado em sua época de origem. Lemos com atenção, cada palavra, entendendo seu significado. 2. Depois vem a meditação onde procuramos entender o que o texto nos diz hoje. Significa atualizar a mensagem da Palavra para a nossa vida e nosso cotidiano. 3. O próximo passo é a oração: o que o texto me faz dizer a Deus? Até agora Deus nos falou algo, agora é o momento de conversamos com ele (suplicas, louvores etc). 4. Por fim, vem o momento da contemplação: significa fitar o nosso olhar em Deus e reconhecer a sua presença em nossa história. Simplesmente "ver o mistério de Deus" agindo em nossa vida e na comunidade. Duas dicas práticas: tirar um momento todos os dias para fazer a leitura orante. Escolher um ambiente onde haja silêncio para facilitar a oração.
Que a Palavra de Deus seja nosso sustento em nossa caminhada de fé. Paz e liberdade.
Inácio José, mercedário
Bibliografia: SECONDIN, Bruno. Leitura Orante da Palavra – lectio divina em comunidade e na paróquia. São Paulo: Paulinas. 2004.
A comunidade dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus formaram comunidade/assembléia (igreja, ecclesia) em torno da fé proclamada por Pedro no Evangelho deste domingo: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Este é o motivo pelo qual ainda hoje nos reunimos ou deveríamos nos reunir, formando Igreja e construindo o Reino de Deus no meio do povo.
O que importa é a fé de Pedro e não o próprio Pedro. A fé dele se torna fundamento para a comunidade. A fé pode justificar a reunião dos crentes e não a pessoa. Quando nos reunimos em comunidade por causa das pessoas, sem querer desmerece-las é claro, estamos desvirtuando a verdadeira motivação da existência da igreja: a fé em Jesus Cristo. Na prática vemos muito por aí, as pessoas participando da comunidade por causa do padre, ou por causa dos cargos eu exercem na comunidade. São motivações distorcidas, eu diria. A fé em Jesus é que deve ser o motivo principal pelo qual nos reunimos, trabalhamos nas pastorais e movimentos, participamos dos sacramentos etc. Da fé em Jesus Cristo partimos para a valorização das pessoas que faz parte intrínseca da fé em Jesus.
Isso nos faz pensar: a Igreja possui uma função relativa. Pode parecer dura a afirmação, mas é verdade: ela existe em função da fé em Jesus Cristo. Quando ela não ajuda a crescermos nessa fé e a nos comprometermos com a causa do Reino de Deus, motivo pelo qual Jesus deu a sua vida, então algo precisa ser modificado, algo precisa ser questionado e mudado. Dessa forma podemos perceber que não somente nossa comunidade se reúne em torno de Jesus, mas que muitas outras por aí, de formas distintas de expressão, também se reúnem com esse propósito.
Que a liturgia deste domingo nos favoreça uma melhor compreensão de que somos Igreja, que somos família reunida em torno da fé em Jesus, com a meã de construirmos um mundo novo, mais justo e fraterno (Reino de Deus). Que nos sintamos indagados a respeito de nossas motivações acerca de nossa participação da vida eclesial: afinal, porque participo da Igreja? Porque sou católico? Qual a minha real motivação para a minha participação na comunidade cristã?
Deus nos abençoe.
Paz e Mercê!
Inácio José, mercedário
A fé de Pedro II
Em nossa última reflexão dizíamos que a fé de Pedro é que era a pedra que sustentava a comunidade dos seguidores de Jesus e não o próprio Pedro. No evangelho deste domingo percebemos como que essa afirmação procede. Depois de proclamar que Jesus é o Messias, Filho do Deus vivo, Pedro não aceita o anúncio do próprio Jesus que dizia que deveria sofrer em Jerusalém e ressuscitar no terceiro dia.
Que Jesus é o Messias, tudo bem. Mas que tipo de messias? Na época de Jesus existiam diversas expectativas messiânicas das quais a que mais se destacava era o “messias, filho de Davi”, espécie de líder político que libertaria os judeus da dominação dos estrangeiros. Quando Pedro diz que Jesus é o messias talvez esteja pensando neste tipo de messias que, obviamente não poderia morrer, não poderia ser vencido e que usaria de violência. Jesus desconstrói esse messianismo, pois Jesus se configura como o Messias Servo Sofredor, aquele que morre por causa da justiça, mas que, através do qual, Deus redime a muitos. Esse messianismo é inspirado nos “cânticos do servo” no profeta Isaias.
Aquele que pensa Jesus como um messias glorioso e cheio de poder, na verdade está com os “pensamentos de satanás”! Nas tentações de Jesus por acaso, satanás não o procurou tentar lhe oferecendo poder? Jesus recusou isso. Não aceitou.
Que tipo de messias a Igreja tem ensinado que é Jesus? Messias glorioso? Ou messias que sofre e morre não porque o Pai quis, mas porque lutava por um mundo mais justo? Dizer que Jesus morreu porque Deus quis é legitimar nosso sofrimento e justificar em Deus todos os males pelos quais somos responsáveis. Mas dizer que Jesus morreu porque lutava por um mundo mais justo e que isso incomodou a alguns poderosos de sua época, os quais o mataram, significa afirmar que Deus está do lado de quem quer um mundo melhor e mesmo que este morra, terá a vida a vida, pois Deus não corrobora com a injustiça, mas deseja o bem de todos.
Enfim: a fé de Pedro sustenta a comunidade, mas mesmo assim precisa ser purificada. Hoje em dia o mesmo acontece: a fé dos representantes de Pedro devem nos levar a perceber Jesus como Messias, filho de Deus, que morre pela justiça e não por um decreto do Pai (senão, que Pai bondoso seria esse???). Devem nos levar também a perceber Jesus não tão glorioso e distante de nós, mas um Jesus encarnado em nossa história, que conhece os nossos dilemas e desafios e que por isso mesmo, pode ser luz e salvação para as nossas vidas.
Paz e liberdade.
Mercê em abundância para todos.
Inácio José, mercedário
EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ
Jesus fez por merecer sua cruz. Essa afirmação pode parecer dura e chocar a catequese que recebemos quando crianças. Geralmente aprendemos que Deus enviou Jesus ao mundo para morrer na cruz. Isso contradiz em muito o Deus de amor que o próprio Jesus veio nos comunicar. Que Pai é esse que manda o próprio Filho ao mundo para morrer desse jeito?
Quando digo que Jesus fez por merecer a sua cruz quero afirmar que a cruz foi conseqüência da vida de Jesus. Num mundo injusto quem prega e vive a justiça acaba padecendo a morte nas mãos dos poderosos. Num mundo onde os pequenos são explorados, quem se atreve a ser a voz deles, acaba tendo a cruz como fim. Não morre na cruz quem é pecador. Pecadores são os que crucificam, tanto ontem, como hoje!
Nesse domingo celebramos a exaltação da santa cruz: pela cruz de Jesus nos veio a salvação. Como a cruz, sinal de violência para com os mais fracos pode se tornou instrumento de salvação? Na cruz, o amor venceu a violência, o ódio, o egoísmo. A violência desmedida e opressora dos romanos é minada em sua raiz pelo amor de Deus que se doa para a nossa felicidade, "não tiram a minha vida, eu a dou por mim mesmo", diz Jesus no evangelho de João. O remédio contra a violência em nossa vida, casas, bairros, é o perdão, é o se doar novamente mesmo aos nossos inimigos. Desta forma o círculo vicioso da violência e do pecado pode ser vencido.
Assim da mesma forma como as serpentes no deserto são convertidas em sinal de cura para o povo de Israel pelas mãos de Moisés, a cruz de Jesus, aparente derrota diante do poder da violência, se converte em sinal de vida e vida em abundancia; tanto é verdade que sua mensagem não morreu, continuamos ainda hoje levando adiante a boa nova de um mundo mais justo e fraterno.
Jesus fez por merecer a sua cruz. E nós também, na medida em formos coerentes no empenho em transformar as estruturas de injustiça em nosso mundo, também poderemos ter a cruz, a morte cruel como fim. Haja visto tantas pessoas que morreram sob a ditadura militar. Pessoas que morrem ainda em nossos dias na Amazônia defendendo os agricultores. Missionários que morrem defendendo os direitos dos indígenas e muitos outros mais. Será que como Jesus, queremos também merecer a nossa cruz?
Inácio José, mercedário.
O desafio de ser comunidade-reconciliação.
A liturgia deste domingo nos convida a duas coisas: 1) formar e criar consciência de que somos comunidade. 2) somos chamados a sermos comunidade reconciliadora.
Ezequiel profetiza para o povo de Deus exilado na Babilônia. Deus lhe chamou a ser sentinela do povo. Hoje em dia vivemos uma ideologia de que cada deve viver sua vida sem prestar conta dela aos demais, "a vida é minha, ninguém não tem nada a ver com isso". Quando se vive em comunidade, precisamos assumir a postura de sermos responsáveis pelos passos da comunidade: se ela vai bem, é graças a nós. Se vai mal também é por responsabilidade nossa. Quando exortamos a comunidade para o bem e ela mesmo assim vai mal, a responsabilidade é da comunidade. Agora se vai mal porque não demos a nossa contribuição, então a responsabilidade cai sobre nossas costas. Precisamos adquirir a consciência de que "somos igreja" e não somente o papa, bispos, padres etc. Sou igreja. Você é igreja. Somos igreja.
Quando vivemos em comunidade a única coisa que importa é que vivamos o amor. O amor resume todos os preceitos da Torah, segundo Paulo. Como bom fariseu que era, ele resume é um só versículo os mandamentos da Torah: "ame o próximo como a si mesmo". No tempo de Jesus a "regra de ouro" era famosa, "não faça aos outros o que não queres que te façam". Jesus formula o mesmo pensamento não proibindo, mas convidando à ação, "faça aos outros o que queres que te faça", ou seja, me comporto com os demais do mesmo modo como quero que comportem comigo. Jesus nos chama a atenção para o fato de que o "não fazer o bem" também é pecado: nossa omissão é responsável por uma comunidade cristã menos humana, bem como uma sociedade menos humana.
Na comunidade haverá atritos, ofensas etc. Viver em comunidade é sempre desafio. Não somos anjos. Somos humanos. Cada um diferente do outro. Por isso se o irmão peca contra mim na comunidade, devo conversar com ele, me reconciliar com ele e não descontar nos outros... Interessante o detalhe: pecar contra alguém (indivíduo) significa pecar contra a comunidade (ekklesia – igreja). Por isso se em meu diálogo com alguém que me ofendeu eu não consegui "acertar meus ponteiros com ele", devo chamar pessoas para intermediar a paz ("levar dois comigo"), caso ainda não dê resultado comunico a igreja, para que ela possa intermediar a reconciliação (fantástico: o texto começa com uma ofensa pessoal que é compreendida como uma ofensa à comunidade. Não estará aqui a consciência de que o "indivíduo é igreja"?). Se mesmo assim não houver reconciliação então é melhor deixar as coisas como estão ("tratar como pagão, ou pecador público"). Isso não significa expulsar a pessoa da comunidade ou menosprezá-la publicamente. Entendo aqui o fato das pessoas que não se entendem na comunidade se afastarem dela. Ora, na teoria seria belo demais se todos nos entendêssemos. Mas na prática não é assim. Deus quer que todos sejamos felizes dentro ou fora da igreja. Por isso é melhor a pessoa ser ela mesma e feliz fora da comunidade do que causar transtornos e infernos dentro da comunidade, sendo infeliz e fazendo os demais infelizes.
Na comunidade as decisões devem ser partilhadas. "tudo o que tu ligares... tudo o que tu desligares"... "Ligar" e "desligar" são termos rabínicos de inclusão ou expulsão de um membro da escola ou sinagoga da época de Jesus. Ora, no capitulo 16 de Mateus, Jesus dá esse poder a Pedro. Aqui Jesus dá esse poder aos discípulos. Isso significa que as decisões na comunidade não devem estar nas mãos de uma pessoa somente, mas nas mãos da comunidade, devidamente representada pelo conselho da comunidade. Lendo somente o cap. 16 temos a impressão de que Pedro tem todo poder nas mãos. Essa impressão cai por terra quando avançamos a leitura até o cap 18, texto de nosso domingo.
Enfim, Mateus quer nos ensinar que a comunidade não deve ser um espaço de bagunça e desorganização, mas que deve ter seus limites e normas de boa convivência. Jesus está no meio da comunidade, dando o seu aval às decisões e orações feitas em comunidade. Belíssimo ensinamento remando contra a maré do individualismo e subjetivismo exacerbado no qual vivemos atualmente. Deus nos abençoe em nosso desafio de sermos comunidade.
Paz e liberdade.
Mercê em abundância.
Inácio José, mercedário
Leitura Orante da Palavra (lectio divina)
O que é? A lectio divina ou leitura orante da Palavra de Deus é o modo de nos aproximarmos da Palavra, com a finalidade de orar e entrar em contemplação, isto é, entrar em comunhão com Deus e sua vontade através de sua Palavra. Não é um estudo exegético nem curiosidade, mas uma leitura amorosa da Palavra que nos leva a mergulhar no mistério de Deus e descobrir sua vontade em nossa vida.
Contexto histórico. Esse modo de leitura da Palavra já está presente nos Santos Padres da Igreja, que tinham a preocupação de que as pessoas não se aproximasse da Palavra com mero espírito de especulação, mas respeito amoroso por ser Palavra de Deus, mas sua sistematização mais clássica temos na obra do monge cartuxo Guido II (1188) em sua carta a Gervásio, intitulada Scala claustralium, que a dividiu em 4 momentos: leitura, meditação, oração e contemplação.
Importância hoje. A Igreja no Concilio Vaticano II confirmou a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja através do documento Dei Verbum, em diversas de suas passagens. Toda a teologia e espiritualidade da Igreja está centrada na escuta e vivência da Palavra de Deus. Todos os fiéis são convidados a fazer a experiência do mistério de Deus mediante a sua Palavra.
Como fazer? São quatro passos simples, mas que devem ser feitos em espírito de oração. Por isso, convém começar invocando o Espírito Santo, inspirador das Sagradas Escrituras, para nos abra a mente para mergulharmos nos mistérios de Deus. Escolhemos uma passagem para fazer a leitura (pode ser algum texto da liturgia do dia). 1. Na leitura procuramos entender o que o texto diz em si mesmo, sobretudo para aqueles aos quais o texto foi destinado em sua época de origem. Lemos com atenção, cada palavra, entendendo seu significado. 2. Depois vem a meditação onde procuramos entender o que o texto nos diz hoje. Significa atualizar a mensagem da Palavra para a nossa vida e nosso cotidiano. 3. O próximo passo é a oração: o que o texto me faz dizer a Deus? Até agora Deus nos falou algo, agora é o momento de conversamos com ele (suplicas, louvores etc). 4. Por fim, vem o momento da contemplação: significa fitar o nosso olhar em Deus e reconhecer a sua presença em nossa história. Simplesmente "ver o mistério de Deus" agindo em nossa vida e na comunidade. Duas dicas práticas: tirar um momento todos os dias para fazer a leitura orante. Escolher um ambiente onde haja silêncio para facilitar a oração.
Que a Palavra de Deus seja nosso sustento em nossa caminhada de fé. Paz e liberdade.
Inácio José, mercedário
Bibliografia: SECONDIN, Bruno. Leitura Orante da Palavra – lectio divina em comunidade e na paróquia. São Paulo: Paulinas. 2004.
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