sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pedro Nolasco, um revolucionário?

Introdução
Pedro Nolasco viveu no séc XII. Contexto histórico das cruzadas, combate da cristandade contra o islamismo que avança na Europa e que tomou os lugares santos católicos no Oriente. No combate entre cristãos e mulçumanos, muitos de ambos os lados se tornaram cativos, presos políticos por causa da religião que professavam. Nesse contexto podemos considerar Pedro Nolasco e suas intuições como algo revolucionário para a Igreja?

Pedro Nolasco, um revolucionário entre revolucionários.
Outras figuras importantes na igreja apareceram nesse contexto. Diante do contra testemunho de Igreja luxuosa e rica, aparece Francisco de Assis como testemunho do Jesus pobre entre os mais pobres (franciscanos). No combate aos "movimentos heréticos" que começaram a surgir no seio da Cristandade, aparece a figura de Domingos de Gusmão, com o desejo de pregar a "autentica fé" em Jesus Cristo (dominicanos). Percebendo a liberdade humana sendo ameaçada e o ser humano se tornando objeto a ser comercializado, Pedro Nolasco aparece como defensor da liberdade humana. Ou seja, Nolasco vem no bojo de outros grandes movimentos eclesiais do séc XII.

Pedro Nolasco, quem és?
Era comerciante. Herdou o trabalho de sua família aos 12 anos que se viu órfão dos pais. Um dia ao vender telas na África, fazem experiência de Deus ao ver cristãos cativos sendo vendidos pelos mulçumanos. Percebe que por trás de cada cativo está Jesus que clama por liberdade. Decide investir o seu dinheiro na compra desses cativos. Amigos seus lhe seguem nesse trabalho. Quando acaba o dinheiro, em oração recebe a inspiração divina, por meio de Maria das Mercês, para fundar uma família religiosa que esmolasse dinheiro para comprar a liberdade dos cativos. Caso ainda houvesse cativos cristãos em risco de perder a fé, o mercedário daria a sua própria vida no lugar dele, ficando como cativo.

Nolasco, misericórdia para os que sofrem.
Os mercedários surgiram para cuidar dos que eram vítimas das cruzadas. A igreja respondeu aos mulçumanos com violência. Nolasco responde propondo o dar a vida pela libertação. Nesse sentido, Nolasco é um revolucionário pacífico e não violento. Após o resgate dos cativos, quando voltavam para a europa, ficavam um tempo junto aos mercedários como testemunho da libertação acontecida. Nolasco, portanto assumiu em sua vida a mercê de Deus, que é misericórdia: sobretudo para com aqueles que nem a si mesmos se possuem, os cativos.

Cativeiros hoje?
Nolasco continua atual. Nos interiores do Brasil ainda existe trabalho escravo. Nossa sociedade é cativa do consumo, do lucro, do dinheiro. Somos cativos de nós mesmos, de nosso egoísmo, de nossas opiniões tidas como a verdade. Hoje o ser humano reclama por liberdade, embora nem sempre saiba usa-la direito para o bem. Conquistar a própria liberdade é processo que dura a vida inteira. Por isso, esse jovem, que gastou seus bens e sua vida na luta pela liberdade pode nos ensinar muito hoje: lutar pela liberdade de todos. Conquistar a nossa liberdade, que no fundo significa ser a gente mesmo e não o que querem que sejamos (sociedade, instituições, igrejas etc.). O mais importante: que Nolasco nos ensine que devemos ser livres sim, mas livres para servir e colocar a nossa vida a disposição dos oprimidos de nosso tempo. Liberdade não colocada a serviço dos demais não é liberdade... é sutil disfarce para o egoísmo.
Paz e Liberdade.
Inácio José, mercedário


GRAÇA DE DEUS E NOSSA RESPONSABILIDADE EM ACOLHÊ-LA.
Introdução
No mundo no qual vivemos, é difícil compreender a dinâmica da gratuidade divina. Como hoje tudo se compra e ninguém presta algum serviço aos demais sem esperar algo em troca, atribuímos a lógica capitalista a Deus em sua relação para conosco. Exemplo: quem foi rezou mais, agiu mais caritativamente com os irmãos, teria um prêmio maior no céu, ao passo que quem foi ruim na terra, teria o inferno como prêmio. Lógica absurda diante do Deus de Amor que Jesus nos revela nos Evangelhos. Vejamos os evangelhos que a liturgia nos propõe e percebemos a grandiosidade da misericórdia divina e sua relação de gratuidade para conosco. Antes alguns esclarecimentos: os textos sempre usam vinha como símbolo de Israel. O fruto que Israel deve dar é, sobretudo a justiça mediante a vivência da Palavra de Deus. Podemos atualizar para nossa realidade. Nossas comunidades são a vinha do Senhor que devem dar frutos de justiça, paz, amor, comunhão, mediante a vivência da Palavra de Deus.

Dia 21 de setembro, Mateus 20, 1-16, parábola do patrão que contrata os empregados durante o dia.
É conhecido o texto. Durante o dia o patrão chama trabalhadores para vinha. No final do dia chama alguns que "ninguém quis contratar" e no final paga a todos o mesmo salário. Historicamente o texto se refere aos pagãos que são admitidos na comunidade cristã e que terão o mesmo direito que os judeus que seguem a Jesus. Se botarmos os óculos dos "direitos trabalhistas", o patrão se torna injusto. Mas com os "óculos da graça de Deus", percebemos que Deus tem o mesmo amor a todos. Ninguém tem direito a cobrar de Deus porque tudo o que fizermos não se compara a graça divina, Deus é infinitamente maior do que nossas ações. Por isso com Deus não se barganha. Outra coisa: muitas vezes na comunidade nos consideramos aqueles que passam o dia todo a serviço do Senhor e nos achamos no direito de no final ganhar mais de Deus do que aqueles que chegam agora na comunidade. Bobagem! Diante de Deus talvez nós é que sejamos estes últimos a chegar, por muitas vezes não estarmos fazendo de fato a sua vontade em nossa vida.
Dia 28 de setembro, Mateus 21, 28-32, parábola do pai com os filhos obediente e desobediente.
O pai pede a um filho que vá trabalhar na vinha e este diz que vai e acaba não indo. O pai pede a outra que vá para vinha, este diz que não vai e no final acaba indo. Quem fez a vontade do pai? Historicamente o texto se refere à acolhida da comunidade aos tidos pecadores, dizendo que estes na verdade entraram na dinâmica do Reino muito mais do que aqueles que formalmente disseram sim à proposta, mas que na prática não vivem a dinâmica do Reino. Pensando o texto hoje: muitos se dizem cristãos, mas não vivem como cristãos. Muitos nem sequer pisam na igreja, nem se dizem cristãos, mas vivem profundamente os valores que Jesus ensinou? Deus não quer formalidades de nossa parte, mas quer uma vida comprometida com o Reino de Deus, como este mundo novo que está sendo gestado na medida em que promovemos a justiça e paz.
Dia 05 de outubro, Mateus 21, 33-43, parábola dos vinhateiros homicidas e gananciosos.
O dono da vinha a arrenda a vinhateiros e pede que seus empregados recebam os frutos. Os vinhateiros os matam. Matam inclusive o filho a quem o pai achava que os vinhateiros fossem respeitar. O matam porque querem sua herança. Falsa pretensão de receber a herança por parte dos vinhateiros, pois o pai continua vivo ainda!!! Historicamente o texto critica as autoridades que mataram Jesus. Vai além disso: o Reino que era propriedade deles passará a algum povo que o acolha. Aqui no caso trata-se dos gentios que se tornam cristãos em contraponto com os judeus que não creram em Jesus. Interessante notar: a vinha não é dos vinhateiros, é do dono. Os vinhateiros apenas trabalham para passar os frutos ao dono. O Reino de Deus não é nosso, é de Deus. Apenas administramos os seus mistérios e trabalhamos para que ele se concretize em nosso meio. Igreja nenhuma, instituição religiosa nenhuma pode se arvorar a ser dona da verdade e muito menos dona de Deus! Isso é falsa pretensão gananciosa. Outro detalhe: o texto nos convida então, a perceber que devemos dar bons frutos de justiça, caso contrário, a dinâmica de fraternidade será vivida por outros e não por nós, para o nosso próprio fracasso enquanto discípulos de Jesus.
Conclusão
Pelos textos de Mateus refletidos na liturgia nos últimos domingos podemos perceber a gratuidade divina. Esses são os óculos com os quais devemos ler os Evangelhos. Deus em sua gratuidade, sem merecimento de nossa parte, nos chama à comunhão consigo mediante a prática de sua Palavra. Sua Palavra nos forma na paz e na justiça. Como batizados esse é nosso compromisso assumido. Acontece, no entanto, que muitas vezes somos infiéis e muitos que nem cristãos são, vivem de forma muito melhor os valores que nós pregamos. Ora, Deus olha para vida concreta das pessoas. É na vida que transparece o que a pessoa acredita. Isso deveria sempre nos questionar e inquietar. Outra coisa: com Deus barganha não funciona. Deus não é capitalista. Deus ama a todos sem distinção e se no final de nossa história não vivermos a plenitude de vida junto dele, não será porque Ele nos condenou, mas sim porque, em nossa liberdade, escolhemos não viver essa comunhão de amor com Ele, manifestada desde já, na comunhão fraterna com a humanidade.

Deus nos abençoe.
Paz e liberdade.
Mercê em abundância.
Inácio José, religioso mercedário

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