domingo, 1 de março de 2009

Desertos da vida...

 

Nesse primeiro domingo da quaresma ouvimos o evangelho de Mc 1, 12-15 que relata de maneira breve a estadia de Jesus no deserto por 40 dias. Os demais evangelistas sinóticos (Mt e Lc) contam o diálogo de Jesus e o diabo. Mc apenas fala que Jesus foi tentado, que viviam em meio aos animais selvagens e que os anjos o serviam. Tudo isso conduzido pelo Espírito.

Entramos com Jesus nesse deserto no período quaresmal. Do mesmo modo que Adão e Eva em Gn 2, 28-30, Jesus convive no meio das feras. Isso quer dizer que em Jesus uma nova criação acontece. Uma nova humanidade nasce. Para isso é necessário preparação, simbolizada pelos 40 dias, que nos lembram os quarentas anos de Israel caminhando no deserto rumo à terra prometida. O deserto além de ser espaço da provação (Israel se rebelou contra Deus no deserto, Jesus venceu suas provações no deserto usando da Palavra de Deus. Cf. as tentações de Jesus em Mt e Lc), também é espaço no qual Deus fala amorosamente ao coração segundo o profeta Oséias 2,14, chamando à conversão. Enfim, para que uma nova pessoa humana (“nós”) possa nascer se faz necessário entrar nesse deserto com Jesus e escutar a Palavra de Deus que nos chama a mudança de vida.

Jesus é sinal para nós da aliança que Deus fez com Noé: “nunca mais haverá dilúvio sobre a terra”, ou seja, Deus por sua própria vontade deseja amar definitivamente toda a humanidade, simbolizada por Noé. Deus nos ama não porque merecemos, mas porque Deus deseja nos amar. Eis a noção de graça já presente no Primeiro Testamento: misericórdia, amor, benevolência gratuita de Deus para com a humanidade. Deus não deseja a morte e nem o castigo ao pecador, mas deseja a sua salvação, a sua conversão. Deus deseja a nossa abertura para nos relacionarmos amorosamente com Ele. (Gn 9,8-15)

Já a carta de Pedro que ouvimos (1Pd 3,18-22) nos lembra o nosso batismo, fazendo uma leitura interpretativa do texto da arca de Noé em Gn. Dessa forma a arca simboliza o batismo que nos salva do castigo devido aos nossos pecados. Pelo batismo nos comprometemos a seguir Jesus, nos tornamos discípulos dele e continuadores de sua missão na terra. Pelo batismo queremos ser testemunhas desse amor gratuito que Deus tem por todas as suas criaturas, tal e qual Jesus.

Não tenhamos medo de entrar nesse deserto com Jesus. Lá seremos purificados de nossas falsas motivações no seguimento cristão (tentações). Se somos “corpo místico de Cristo” como ensina a Igreja e se Jesus saiu vencedor das suas (e nossas) tentações, seguindo a Palavra de Deus tal como Jesus, também nós sairemos do deserto vencedores de nossas tentações e seremos purificados em nosso discipulado cristão. Tenhamos a certeza de que, por mais difícil que seja encarar as nossas mazelas, maldades e fragilidades, Deus sempre estará conosco nos ajudando. Lembre-se: foi o Espírito que conduziu Jesus ao deserto. Ele também nos haverá de conduzir.

Paz e mercê de Deus em tua vida. Santa quaresma!

Frei Inácio José, mercedário

Nenhum comentário: